Resenhas

Para Mulheres Feias, Grossas e Mal-Amadas

Resenha: Para Mulheres Feias, Grossas e Mal Amadas

Autora: Anna Carolina Longano

Páginas: 99

Editora Patuá

Publicação: 2026

ISBN: 978-6528103966

Disponível no site da Editora Patuá

A cultura criada pelo patriarcado, que mantém as mulheres subordinadas a autoridade masculina, permeia todas as facetas da sociedade brasileira. Como escreveu Simone De Beauvoir em Segundo Sexo, mulheres não são sujeitos, mas sim objetos da dominação masculina. A violência declarada, espancamentos, violações, feminicídios estão nas notícias diariamente. Escancaradas, chocam muitos, mas deleitam os misóginos; a crueldade alheia os empodera. No entanto, as perversidades cotidianas são mais insidiosas e difíceis de serem desvendadas.

Em Para Mulheres Feias, Grossas e Mal-Amadas, publicado pela Editora Patuá, Anna Carolina Longano consegue expor a crueldade das expectativas impostas às mulheres de maneira tocante. Em quatro contos, que nos pegam como golpes de vento abruptos e violentos e nos levam ao íntimo das expectativas sociais limitantes impostas às mulheres em todas as facetas de nossas vidas, Anna Carolina descortina nuances das crueldades diárias que muitas vezes, tristemente, mulheres exercem elas mesmas. O patriarcado endoutrina com maestria.

A escrita de Anna Carolina é precisa, sarcástica e fluida. Os contos exploram temas distintos, com protagonistas enfrentando desafios conhecidos, mas nunca questionados. Sempre foi assim, entre no esquema ou lide com as consequências.

Puta Vacilo – A mulher jovem e passional engravida fora dos laços do casamento e se vê isolada, julgada com crueldade a vida inteira. Quando era adolescente, lembro de ouvir amigos do meu pai lhe dizerem: segure sua cabrita que meu bode está solto. Infelizmente, esse dito chulo segue solto.

Refoga – A menina pobre desenvolve uma sensibilidade extremada a cheiros. Cheiro de corpo não é aceito. Mulher tem que estar perfumada, mesmo que tenha acabado de fazer faxina. Numa sociedade que julga as mulheres pela “apresentação”, ocupamos espaços de acordo com quanto podemos investir em nossa aparência. Maquiagem, roupas, perfumes deixam de ser apenas formas de expressão pessoal e escolha íntima e se tornam barreiras sociais.

Como o Esperado – A mulher trans, feliz por ter conseguido mudar o nome em seus documentos legais, faz a alteração de dados cadastrais junto ao RH da empresa onde trabalha. De um dia para outro, passa a sofrer todas as limitações impostas às mulheres no ambiente profissional. Não é mais ouvida e respeitada em reuniões. Nem seus funcionários a tratam com a mesma deferência devida. Não pode mais falar com objetividade sem ser acusada de temperamental. Lembrei-me de ter sido rotulada de “excessivamente proativa”. Engraçado que quando precisavam que alguém encontrasse o erro num planilha particularmente complexa, lembravam que meus “defeitos” tinham seus benefícios.

Último Golpe – O endoutrinamento social de uma mãe a transforma em uma criatura cruel, limitada a uma visão de mundo que não permite que ela enxergue a própria filha. Este conto finaliza o livro de maneira chocante, porém, crível. A alienação emocional desta mãe funciona como uma metáfora perfeita para a lavagem cerebral que leva muitas mulheres a agirem como soldados, fiéis ao patriarcado, na luta para extinguir qualquer comportamento que desafie o status quo.

A voz perspicaz e sarcástica da escritora transforma a leitura dos contos, que provocam nossa sensibilidade e nos mantém em estado de alerta, numa experiência prazerosa para quem aprecia uma prosa bem desenvolvida. Gostei demais deste livro!

Vai bem com chá mate com limão, sem açúcar, e música da Pitty. Desconstruindo Amélia!

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