De acordo com documentos judiciais e reportagens investigativas sobre a industria, empresas de Inteligência Artificial estão comprando livros físicos em grandes quantidades, incluindo títulos raros que já não são mais impressos, usando máquinas hidráulicas, que cortam as lombadas dos livros para escanear suas páginas em larga escala, e destruindo os originais.

O processo faz uso de pedidos anônimos no atacado, com compras de até um milhão de livros por vez, e tem como alvo livros anteriores a 2022 para garantir que sejam livres de conteúdo gerado pelas próprias Inteligências Artificiais.
A grande reviravolta nesta trama de não-ficção é que em 2025, num caso em que um autor processou a empresa de IA, Anthropic, por piratear seus livros digitais, um juiz da Califórnia declarou que usar exemplares físicos comprados legalmente para treinar Large Language Models (LLM – Modelos de Linguagem em Escala) era aceitável, mas piratear não. Na época, a Anthopic teve que pagar 1,5 bilhões de dólares em danos a autores pirateados. O que ninguém esperava é que empresas de IA encontrariam uma maneira de explorar este veredicto para seguir causando danos à sociedade.
Em entrevista a plataforma digital de notícias 404 Media, um negociante de livros antigos informou que livros raros, com pouquíssimos exemplares ainda em existência, estão sendo destruídos. Livros que sobreviveram a séculos de manuseio, incêndios e guerras estão sendo dizimados.
Nos documentos judiciais referentes ao caso sobre direitos autorais contra a Anthropic, que foram tornados públicos, encontram-se detalhes de planejamento de um projeto nefário da Anthropic que foi iniciado no começo de 2024. Nesses documentos, a Anthropic diz: “O Projeto Panamá é nosso esforço para escanear destrutivamente todos os livros do mundo.” O mesmo documento ainda declara: “Usamos um codinome temporário para o projeto porque não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisto. Este documento é visível a todos os funcionários da Anthropic, mas deve-se evitar falar sobre isso em áreas públicas, e o fato de que estamos trabalhando nisto não deve ser mencionado a ninguém fora da Anthropic.”
A Anthropic contratou o ex-líder do setor de parcerias da Google Books (Google Livros), Tom Turvey, para liderar os trabalhos de obtenção de livros. Ele montou um esquema que usava subsidiárias com nomes desconhecidos e acordos de confidencialidade para adquirir os livros. Assim a empresa comprou anonimamente volumes de vários comerciantes de livros usados como: Better World Books (Livros Mundo Melhor) e World of Books (Mundo dos Livros), além de comerciantes de livros da Holanda, Alemanha, Suíça e Espanha. Pieter de Vries of De Vries & De Vries de Haarlem, na Holanda, recebeu pedido de quase três mil exemplares para importação de um comerciante de livros de Singapura. Uma empresa alemã recebeu pedidos de livros acadêmicos desconectados de uma empresa canadense chamada Zoom Books (Livros Zoom). Esses comerciantes relataram que os pedidos não apresentavam coerência com o fluxo típico gerado por colecionadores ou lojas procurando livros para revenda.
A ISBNdb, que mantém o maior banco de dados de livros do mundo. se envolveu ativamente no Projeto Panamá. Em seu site, eles declaram: “A melhor fonte de dados para treinamento de IA está na prateleiras.” ISBNdb enfatiza que livros impressos pre-LLM (anteriores aos Modelos de Linguagem em Escala) são livres de conteúdo gerado por IA. A empresa facilita pedidos de mil a um milhão de livros e oferece acordos de confidencialidade sobre as aquisições, pois, como declara em seu website: “O problema de percepção é real. ‘Empresa de IA destrói dois milhões de livros’ não é uma manchete que gera simpatia.”
A ISBNdb construiu um modelo de negócio para facilitar a destruição discreta de livros. Eles até treinam seus clientes a chamarem o processo de preservação digital.
Os documentos judiciais demonstram que a Anthropic já vinha fazendo isso em paralelo ao pirateamento de arquivos de livros digitais. Com a decisão judicial de 2025, o processo se acelerou, pois não apenas a Anthropic, mas todas as empresas de IA se veem empoderadas a destruir livros físicos. Cortadoras hidráulicas cortam as capas dos livros pela lombada. Em seguida, as páginas soltas são alimentadas a escaneadoras industriais. Ao final, o material, páginas e capa, é todo destruído. Algumas empresas enviam o papel para ser reciclado.
Só para enfatizar, as empresas de IA sabem que o que estão fazendo é horrível, afinal, tentaram tomar precauções para prevenir que a informação viesse a público. Usaram planejamentos secretos, empresas laranjas e acordos de confidencialidade para mascarar que estão, de fato, destruindo milhões de livros, incluindo exemplares raros. A ISBNdb é conivente. O sistema judiciário americano, que tem o poder de frear os abusos das empresas de IA, deu carta branca a esta prática tenebrosa.
Tudo isso sem contar a ironia dessas empresas só se interessarem por livros escritos sem o uso da tecnologia que eles defendem com tanto fervor. É que o material gerado por IA está cada vez mais medíocre. Para superar a tendência do resultado mediano, é preciso seguir alimentando o monstro com criatividade humana. E quando tiverem pirateado, escaneado, copiado, roubado tudo enquanto convencem a todos que eles são os detentores de toda a criatividade e intelectualidade? 1984 de George Orwell e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury tem algumas respostas.
Alguém tem que avisar aos líderes da industria de Inteligência Artificial que literatura distópica existe para nos ajudar a prevenir futuros sombrios, não como inspiração.
Acompanho de perto os processos referentes ao pirateamento de livros, música e obras de arte, mas isso é pior, pois é irreversível. Podemos refazer o upload de um website. Pode-se reimprimir um best-seller contemporâneo. No entanto, não conseguiremos reaver as últimas duas cópias de um manuscrito acadêmico raro ou de um folhetim da era vitoriana após todos os últimos exemplares terem sido triturados para virar zeros e uns num banco de dados.
FONTES:
The Vanishing Page: AI Firms Scan Then Destroy Rare Book Editions – Tiffany Chartier – 27 Julho 2026 (Empresas de IA escaneam e depois destroem livros raros)
AI Companies Are Buying Antique Books, Ingesting Their Contents to Train Models, and Then Destroying Them at Incredible Scale – Frank Landymore – 25 July 2026 (Companhias de IA estão comprando livros antigos, ingerindo seus conteúdos para treinar seus modelos de linguagem, e os destruindo em escala incrível)
AI Companies Are Buying Tons of Old Books Because They’re Free of AI Slop – Emanuel Maiberg – 21 Julho 2026
Authors v Anthropic ruling (Decisão judicial do caso Autores versus Anthropic)
The Receipt is the New License: Print Books Sourcing for AI Training (O recibo é a nova licensa: livros físicos para treinar IA)
Bartz v. Anthropic PBC: Exhibit 21 — Document #554, Attachment #21 (Documentos judiciais do caso Bartz versus Anthropic)
Rare book dealers fear tech firms are destroying obscure editions to train AI models – 25 Junho 2026 (Antiquários especializados em livros temem que empresas de tecnologia estejam destruindo edições raras)
Anthropic Agrees to Pay $1.5 Billion to Settle Lawsuit With Book Authors – 9 Maio 2025 – The settlement is the largest payout in the history of U.S. copyright cases and could lead more A.I. companies to pay rights holders for use of their works. (Anthropic concorda com pagamento de 1,5 bilhões de dólares para autores que a processaram)